O que pode uma mulher artista na rua?

Por @ane.valls

 

Sou uma mulher latino-americana. Sou uma mulher brasileira que reside no sul do país. Sou uma mulher em isolamento físico e social desde a segunda quinzena de março. Sou uma mulher que é professora e desde o ambiente doméstico ministra aulas on-line sobre mulheres artistas contemporâneas. Na impossibilidade de estar nas ruas da cidade, nos fluxos e situações que nos eram comum, proponho aulas de visita a si mesma, de reorganização do espaço pessoal, íntimo e interior que precisa ser nutrido em tempos como os nossos.

Mediadas por telas, janelas e interfaces todas, me pus a pensar na arte pública, que se lança na concretude metafórica de calçadas, muros, pontes, a partir de nomes de artistas e coletivos feministas em território latino-americano. No intuito de ampliar suas vozes, conflitos, afirmações, reações, respostas nos contextos os quais operam, respeitando seus modos singulares de produção material e discursiva, lançamos luz na criação de esferas de contrapoder desde uma lógica de resistência. Se não podemos sair e tomar la calle, que possamos nos contaminar com as imagéticas e ações que uma série de mulheres realiza até neste presente-2020 para estarmos cheias de proposições, corpos e vozes em nós que querem expansão, que querem ganhar novamente o espaço social, popular, por inteiro, sem restrições e, acima de tudo, sem violência, portanto, sem medo.

Penso com minhas alunas sobre registros de intervenções urbanas feitas por artistas de múltiplas disciplinas e temáticas que interpelam a realidade política, social e ética e que põe em marcha a visibilidade de uma série de problemáticas como os direitos das mulheres, a corrupção política, a impunidade, o racismo, violência de governos, o indigenismo, entre outros temas motivadores para que as mulheres ganhem às ruas. Testemunhamos intervenções urbanas, alguns alcances  e as motivações que permitem  adentrar a poética e as condições de produção dessa prática artística em solo latino-americano e que nos convocam a questionar:

 

Qual é o jogo de imagem em 2020?

 

Não tenho a pretensão de responder essa pergunta; lanço como provocação a cada uma e cada um de nós. Interessa-me considerar a utilização e experimentação do espaço público no âmbito da manifestação estético-política no amplo arco temporal histórico desde o final das ditaduras militares no continente, passando por processos de transição democrática até chegar nos nossos dias.

Vemos um crescimento de interesse na investigação acadêmica e das instituições expositivas nessa forma alternativa de expressão que tensiona ou torce o artístico e o político, que então é compreendido nas possíveis projeções de ambos os campos.

Qual é o papel das mulheres nos novos repertórios de existência das cidades?

 

As participações femininas e feministas adquirem formas múltiplas: de participação, colaboração, intervenção, mediação, intromissão, ingerência, performances, intervenções urbanas, participações em algum lugar de manifestação, ocupações temporárias de âmbitos comunitários, intervenções gráficas, graffitis, táticas de comunicação com uso de guerrilha midiáticas, etc..

Elas permitem ampliar os seus efeitos, a tornar evidente o que se pretende não-visível, e, algo muito importante, nos encoraja à construção de uma realidade outra, que desafia a sociedade em distintos territórios, construindo significados, códigos, expectativas, modos de conceber e perceber (a si mesma) na sociedade, ao mesmo tempo em que nos encoraja a configurar uma identidade como sujeitas políticas ativas.

Como refletir o que acontece por aqui? Por aí? Que ecos nos chegam? Como comungar do que nos tem tomado? Como isso se extravaza das redomas do lar? Como conciliar artes que se edificam na coletividade urbana e que pedem passagem, que resistem à contenção de quatro paredes?

 

O que nós mulheres, podemos em tempos de quarentena? O que nos é permitido nessa dinâmica espaço-privado-espaço-público?

Respostas disparam de diferentes cartografias no ato desta leitura. Termino com uma resposta breve, de uma experiência recente ocorrida neste mês de novembro. Tive a oportunidade de colaborar com a produção da artista visual Camila Proto na intervenção Através que aconteceu na fachada da Fundação Iberê, em Porto Alegre na programação da virada sustentável 2020 em parceria com Vila Flores.

Diagramas de vida e morte que são indissociáveis às forças que atravessam a existência de mulheres. O que habita o entre? Propomos Através em desenhos que enlaçam o contínuo de mundos e subjetividades como uma fita de Moebius, cuja representação mais comum é a fita do infinito.

Entre diagramas angulosos e duros de morte e orgânicos e curvilíneos de vida, disparamos afirmativas e a mensagem-certeza de que "Nós, mulheres,  somos mundos por vir". Vamos partejar esses mundos juntas?